Haine
A porta do quarto se abriu. O barulho de correntes invadiu o ambiente, tilintando mais a cada passo. Aria virou-se na cama. O ruído cessou.
— Boa noite — murmurou-lhe a voz em meio às correntes.
Sobressaltada, a garota sentou-se na cama e, surpresa, imaginou estar olhando-se em um espelho. Levemente mais desperta, percebeu que não era um espelho.
— O que você é? — perguntou. Puxou os lençóis, cobrindo a face e controlando a vontade de gritar.
— Eu sou você. — respondeu a figura à sua frente. Estendeu os braços algemados, como um cumprimento, mas não teve resposta. Os lábios transpassados por grossas linhas negras esboçaram um sorriso. Inexplicavelmente, disse: — Sou sua raiva, seu ódio, sua impotência. Sou o que você não mostra ao mundo, o que você não pode fazer.
— ... Quê?!
— Vamos, eu sei que você entendeu — sentou-se na beirada do colchão; as correntes se arrastaram. — Você está em meu mundo, agora. Pode fazer o que quiser, dizer o que quiser. As pessoas aqui não são reais. Não para você, pelo menos.
— E para você? — a garota perguntou a seu reflexo. Tirou a coberta do rosto e sentou-se na cama.
— Não importa. Sendo real para você já está bom. Apenas seja você mesma. Agrida, se quiser agredir, eu não vou impedi-la e ninguém irá revidar.
— Será real para você também? — insistiu.
Apenas o silêncio foi sua resposta.
— Qual seu nome?
— ... Yami.
— Yami, agradeço pela oportunidade. Mas não posso ferir outras pessoas, mesmo que eu queira. Vou me sentir bem, mas será passageiro e eu vou me arrepender disso. — Sorriu, engatinhando sobre a cama até sentar-se ao lado da outra garota. Deixou que suas mãos tocassem as dela – tão frias! – e as segurou entre as suas. — Se for real, mesmo que só para você, ainda assim será importante. Você é importante para mim. Eu preciso de você e de mim, isso é chamado de equilíbrio.
— Obrigada — murmurou-lhe, enquanto começava a desfazer-se em pequenos pontos de luz. — Aria, obrigada. — Os pontos rodearam Aria, juntando-se até que não restasse mais nada de Yami a não ser suas correntes e a linha que transpassava seus lábios, e então formaram algo parecido com uma bola luminosa que aproximou-se de Aria até tocar sua pele e então desapareceu. No mesmo lugar, estava escrito ”Hikari”, quase imperceptivelmente.
— De nada, Hikari.
Haine: Ódio, em Francês.
Yami: Escuridão, em Japonês.
Hikari: Luz, em Japonês.
N/A: Persona 4 + Silent Hill + depressão = isso.
Comecei há uma semana e só terminei ontem de madrugada. Agora vou almoçar e sair pro curso. :*
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